Um resort e um parque aquático do mesmo grupo têm economias opostas. O resort quer menos gente pagando mais. O parque quer mais gente. Um vive de ticket médio, o outro vive de volume.
Todo mundo fala como se marcas do mesmo grupo devessem ser a mesma marca, porque uma reforça a outra.
ÀS VEZES UMA PUXA A OUTRA PARA BAIXO.
O projeto era fazer a marca do Arraial d’Ajuda Eco Resort. A marca do Eco Parque, do mesmo grupo, sairia junto: bastaria escrever “Ecoparque” do mesmo jeito, aplicando a identidade do hotel.
Do ponto de vista do cliente, fazia todo sentido. O parque é usado pelo hotel como argumento de venda — quem se hospeda tem o parque incluído. Se um vende o outro, por que teriam marcas diferentes?
Era o escopo acordado. E era o que a gente teria entregue se tivesse começado pelo desenho.
O objetivo declarado do hotel era aumentar o ticket médio. Para isso, precisava aumentar o valor percebido — uma diária mais cara só se sustenta se a experiência parecer valer mais. O público é classe A, com poder aquisitivo alto e expectativa proporcional.
O objetivo do parque era outro: volume. Parque aquático funciona com gente, e por isso não se restringe à classe A. Quanto mais amplo o público, melhor o negócio.
Colocando os dois lado a lado, o problema apareceu. Não são dois produtos do mesmo negócio. São dois negócios com lógicas opostas dividindo um terreno.
E tinha um detalhe do comportamento do hóspede que fechou a questão: quem vai para o resort não necessariamente quer ir ao parque. Vai para descansar. Parque, para essa pessoa, significa confusão, muita gente e fila — exatamente o oposto do que ela foi buscar.
A marca compartilhada não uniria as duas ofertas. Ela puxaria o hotel na direção do parque, e o hotel estava tentando ir para o outro lado.
O projeto foi dividido em dois.
O hotel recebeu uma marca sofisticada e elegante, construída para sustentar os atributos que justificam uma diária mais alta. O parque recebeu uma marca alegre, de parque aquático e diversão, feita para atrair volume.
Duas marcas para o mesmo grupo, cada uma falando com o público que precisa atrair, sem uma atrapalhar a outra. O parque continua sendo argumento de venda do hotel — só que agora como um benefício que o hotel oferece, não como a mesma coisa que o hotel é.
Nada dessa conclusão veio de preferência estética. Veio de olhar três coisas na ordem: o objetivo de negócio de cada operação, o público de cada uma, e o comportamento real de quem consome.
Essas três perguntas não são improviso. Um projeto de marca tem três etapas, nesta ordem: diagnóstico, posicionamento e ativação. O diagnóstico olha a marca, o consumidor e o mercado, e o posicionamento nasce onde os três se encontram — quem a empresa é ou quer ser, o que o consumidor precisa, e como ela se diferencia de quem disputa o mesmo espaço. A ativação é o que faz isso acontecer no dia a dia.
A ordem importa. Diagnóstico é a etapa em que se descobre qual é o problema, e ela existe justamente porque o problema que o cliente descreve nem sempre é o que ele tem. Começar pelo desenho é responder antes de perguntar.
Isso não é falha do cliente. Ele conhece o negócio dele melhor do que qualquer um. Mas está dentro dele, e de dentro é difícil ver que duas ofertas que sempre andaram juntas estão indo para lados diferentes.
Se o projeto tivesse começado pelo desenho, o grupo teria recebido exatamente o que pediu. Uma identidade aplicada em duas operações, entregue dentro do escopo, sem nenhuma reclamação no momento da entrega.
Teria trabalhado contra o objetivo que motivou o projeto.
Esse é o custo de pular o diagnóstico, e ele é difícil de enxergar porque não aparece como erro. Aparece como um projeto que foi entregue certinho e não mudou nada. Meses depois, o ticket médio segue igual, e ninguém liga uma coisa à outra.
Pular o diagnóstico não faz o projeto dar errado. Faz o projeto resolver o problema errado com capricho.
E você — o que o seu último projeto de marca resolveu: o problema que você descreveu, ou o que você tem?