Branding em inglês é o present continuous — ou seja, o que está acontecendo agora!
Todo mundo fala como se branding fosse um projeto.
BRANDING NÃO É PROJETO.
Projeto tem começo, meio e fim. Chega o manual, o logotipo novo sobe nas redes, alguém publica o post contando a novidade, e a sensação é de que tudo mudou. No mês seguinte a empresa volta para os problemas de sempre, e a marca fica lá — parada, esperando.
É exatamente aí que ela começa a se desfazer. Não de uma vez, o que seria fácil de perceber. Devagar, um material por vez.
Alguém precisa de um banner com pressa e usa a fonte que tinha no computador. O comercial monta uma proposta com o modelo antigo porque o novo não estava na pasta. Uma linha de produto entra sem passar por ninguém. Seis meses depois, nada disso foi um erro grave, mas a empresa já fala em três vozes diferentes e ninguém sabe apontar o dia em que isso aconteceu.
Digo isso no sentido mais literal possível: define-se o que vai ser medido, mede-se, olha-se o resultado e corrige-se a rota. É o mesmo ciclo que a empresa já aplica em fluxo de caixa, em produtividade, em qualidade de produto. Ninguém acha estranho acompanhar esses indicadores todo mês. Com marca, por algum motivo, a expectativa é que funcione sozinha depois de pronta.
Uma marca sob gestão faz coisas concretas:
Repare que nenhum desses itens é sobre aparência. São decisões de negócio que acontecem toda semana, com ou sem marca definida. A diferença é se elas são tomadas com critério ou no improviso de quem está com pressa.
Pense no Itaú. A marca de hoje não é a de vinte anos atrás, mas você nunca acordou com um Itaú irreconhecível. Foram ajustes sucessivos, cada um pequeno o bastante para não quebrar o reconhecimento e somados o bastante para manter a marca contemporânea. Google e Pepsi fizeram movimento parecido: modernizaram preservando a estrutura que as pessoas já tinham na cabeça.
Não é sorte, e também não é orçamento. É alguém acompanhando.
E aqui está o ponto que interessa para uma empresa de quarenta pessoas: o que falha em rebranding quase nunca é a estratégia. É a execução ao longo do tempo. A direção é aprovada, a identidade é entregue, e a empresa fica encarregada de absorver aquilo enquanto continua operando na velocidade normal. Sem alguém responsável por aplicar, cada área interpreta do seu jeito. A marca se fragmenta ponto de contato por ponto de contato, e nenhum momento isolado parece uma falha — até o acúmulo ficar óbvio para todo mundo, inclusive para o cliente.
É uma objeção justa e eu prefiro encarar de frente. Gestão de marca não exige agência contratada o ano inteiro. Exige duas coisas bem mais baratas: critério escrito e alguém olhando. Três ou quatro indicadores definidos no começo, revisados a cada trimestre, e uma pessoa dentro da empresa com autoridade para dizer “isso não sai assim”. Uma empresa que faz isso sozinha está gerindo a marca. Uma empresa que contrata o melhor estúdio do país e arquiva o manual na nuvem, não.
Comece pelo mais simples, que também é o mais revelador: pergunte a dez clientes o que a sua empresa faz. Não o que ela vende — o que ela faz, e para quem. Anote as respostas com as palavras deles. Se as dez respostas forem parecidas entre si e parecidas com o que você diria, a marca está comunicando. Se vierem dez respostas diferentes, você acabou de descobrir por que o comercial precisa explicar tanto antes de vender. Isso não custa nada e já é um indicador. Repita daqui a seis meses e você terá uma série histórica — que é exatamente o que “gerir” significa.
Branding, então, não é o que você faz. É o que você mantém. O projeto entrega o sistema. A gestão é o que impede o sistema de virar arquivo. E talvez essa seja a parte mais ingrata do trabalho: ninguém publica post comemorando o terceiro trimestre seguido de consistência. Mas é aí que a marca vira ativo, e não despesa que acontece de cinco em cinco anos.
E você — sua marca está sendo administrada, ou foi entregue?